sexta-feira, 6 de junho de 2014

A nossa praia


A partir do início da década de sessenta começámos a frequentar a praia da Barra. Nesse tempo, as férias grandes eram mesmo grandes (quase quatro meses) e, normalmente, embora não muito cedo devido aos habituais nevoeiros, rumávamos à praia de automóvel com os nossos familiares adultos que tinham disponibilidade para nos acompanhar.
 Chegados à Barra, procurava-se estacionar o carro o mais próximo possível da transversal que dava acesso ao areal. Depois, seguia-se a pé com os sacos na mão, sempre em frente. Diante de nós, à direita, ficava a praia entre paredões, com o mar menos batido, considerada muito chique. Entretanto, nós virávamos para a nossa praia, situada do outro lado, à esquerda, a seguir à zona reservada às barracas, tão perto da água quanto possível e sempre a uma boa distância de outros grupos. Um enorme guarda-sol branco e vermelho assinalava o nosso terreno de modo que, quem chegava mais tarde, não tinha qualquer dificuldade em nos encontrar. Depois colocávamos os nossos pertences e os sacos com o lanche à sua sombra e, sempre que não estava a bandeira vermelha hasteada, íamos logo ao banho (o primeiro). Muitas vezes o guarda-sol, poisado estrategicamente sobre a areia, servia mais para nos resguardar do vento do que do sol. Então, a seguir ao banho, muito fresquinhos e a tremer, era ver-nos a procurar um lugar debaixo dele para secarmos. Comíamos também um lanchinho leve e, mal recuperávamos do 1º, seguia-se o 2ºbanho, se possível ainda mais longo e melhor que o primeiro. Esclareça-se que nos deslocávamos para tomar banho na zona vigiada e respeitávamos escrupulosamente as indicações do banheiro e a cor das bandeiras. Algumas vezes o mar estava calmo, podia-se nadar, nós dizíamos que parecia a ria. Levávamos o nosso colchão pneumático para a água, um “Repimpa” vermelho, centralizando as brincadeiras. Havia sempre muitos candidatos a uma volta em cima dele que guerreavam tentando subir e, inevitavelmente, acabavam por cair no meio de grandes gargalhadas e empurrões. Por vezes queríamos transformar o colchão numa prancha de saltos… lá iam todos à água. Era realmente muito difícil, andar deitado no “Repimpa”, remando calmamente com as mãos, sem ser importunado.
Mas quase sempre tomar banho significava ir à luta. O mar com ondas grandes que se enrolavam e vinham rebentar numa grande explosão, empurrando tudo à sua frente, não dava tréguas. Com o hábito aprendíamos a conhecê-lo e a saber perante cada nova onda como reagir: saltar, acompanhando o impulso provocado pela passagem da onda prestes a rebentar, mergulhar na onda a desfazer-se em espuma e aguentar o embate ou apanhar a onda e ser arrastado até à praia. Então, levantávamo-nos com o fato de banho cheio de areia, por vezes, um pouco tontos. Mas levávamos a melhor, saíamos vencedores desta luta.
Entretanto, com muita pena nossa, chegava a altura de começar a pensar na partida. Os meus irmãos e eu regressávamos a casa com os meus pais, para um almoço tardio, muitas vezes já com a nortada a soprar bem forte e o tempo a arrefecer. Como não havia tempo de secar o fato de banho, costumávamos despi-lo usando o famoso saco turco branco e vermelho, às riscas, que enfiávamos pela cabeça e ajustávamos com uma fita ao pescoço (como mostra a fotografia). Depois era toda uma ginástica, dentro do saco, procurando, às cegas, retirar o fato de banho colado ao corpo e vestir a roupa seca. Enfim, este saco era modelo exclusivo da família Neto, confeccionado ou mandado fazer pela minha mãe, inspirada não sei em que modelo visto algures com certeza e ainda existe, guardado no sótão lá de casa. Ah, afinal segundo as últimas informações obtidas, passados uns anos, acabou retalhado e transformado em toalhas.
No mês de Agosto, o grupo da nossa praia animava-se ainda mais com a presença excepcional dos primos de férias em Aveiro, atingindo, nessa altura, cerca de 20 elementos, sem contar com os adultos. Os anos foram passando e, finalmente, consideravam-nos suficientemente responsáveis para passarmos todo o dia na praia, sozinhos, sem a vigilância dos mais velhos e convivermos, em especial, com aqueles que normalmente se encontravam longe e raramente víamos. Lembram-se?


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